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domingo, 4 de abril de 2010

Indo para o leito - poesia



Elegia: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
    
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
    
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-Te: 
atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
   
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

               
(Tradução: Augusto de Campos)


John Donne (1572 - 1631) > Nascido em Londres de rica família católica, veio a converter-se ao anglicanismo. Foi um expoente da chamada Poesia Metafísica ( Filosófica ). Escreveu também muitos textos religiosos, e uma das suas 'Meditações' veio a inspirar o título de famoso livro de Ernest Hemingway.
Note, nessa poesia do séc. XVII, o erotismo nem tão sutil, embora imaginativo ou idealista.

3 comentários:

  1. Olá, meu querido!!

    Que bela e sensual poesia... De uma sensualidade gostosa, envolvente...

    Realmente, para a época, o erotismo não é tão sutil e velado!!

    Adorei, o poema e as informações sobre o autor!!

    Um trecho de outro poema de John Donne:

    "Se até agora ainda não possuo todo o teu amor,
    Querida, nunca o terei de todo.
    Não posso soltar mais um suspiro, comover-me,
    Nem suplicar a mais outra lágrima que corra;
    E todo o meu tesouro, que deveria comprar-te —
    Suspiros, lágrimas, juras e cartas — já gastei.
    Porém, nada mais me poderá ser devido,
    Além do proposto no negócio acordado:
    Se então a tua dádiva de amor foi parcial,
    Que parte a mim, parte a outros, caberia,

    Querida, nunca te possuirei totalmente."

    ^^

    Beijos com carinho!!

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  2. Bom dia Well

    Linda escolha. Suave poesia. Maravilhoso devaneio do autor. Estou sem palavras pra descrever como me senti ao pousar os olhos em leitura tão intensa e bela. Defino-a então assim. Amei-a Simplesmente.
    Beijos no coração.

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  3. É... o cara entendia do riscado!!

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