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sábado, 30 de abril de 2011

ONIPRESENÇA


POR: Kel - a louca
...

Era noite. E no vagão do trem, ninguém deixou de notar aquela estranha mulher que estranhamente trazia os olhos escondidos por um par de óculos escuros...

Só podia ser demente, uns pensaram; outros que doente fosse, quem sabe uma conjuntivite a acometera...

O fato é que ninguém notou que tal um boneco de vudu trazia muitos furos no peito e tantas outras feridas que ainda abertas sangravam por debaixo dos trajes que vestia... E muito menos as lágrimas que banhavam seus olhos escondidos...

Sempre que percebia que uma delas ultrapassaria os limites dos óculos imediatamente e discretamente as continham ali mesmo na margem com um delicado e discreto gesto.

Mas, também ela, mesmo com os olhos marejados, tudo observava.

Trem lotado como de costume: metrô sentido Sé em horário de rush! Mas, dera sorte, estava sentada.

E magoada, observando o mundo e tanta gente estranha: de olhar em olhar deu-se conta de repente que estava mesmo era cercada...

Espelhos!

Fragmentos de espelhos... Cacos de espelhos...

Ainda não sabia bem o que estava se formando em sua mente; mas sabia que tratava-se de espelhos!

Refletiu observando; ou observando refletiu... E sorriu com a frase que se apresentou:

Serei Deus?
  • Meu Deus, estou em todos esses olhares; estou aqui onde estou, mas estou em todos que aqui me cercam; e seja lá onde quer que eu vá estou sempre em qualquer um que lá também estiver! Estou aqui sentada, e ali em pé... Daqui a pouco estarei andando e a meu lado estarei me acompanhando! Ora estarei do meu lado ora em lado oposto...

Estou aqui e em vários lugares que me cercam!

  • Estaria eu também no olhar de alguém que está onde não estou? Sorriu novamente... Aí seria demais!

E há um julgamento em cada olhar!

Prestem atenção: cruzem os olhares, fixem seus olhos nos olhos de outrem! E verão lá todo um tribunal montado com toda sua parafernália... Mas, notem: uma das partes sempre está ausente no olhar do lado de lá, onde sempre há juízes, mas ora há um promotor ora um defensor... Os dois juntos jamais!

É importante esta dialética dos olhares; pois é seu olhar que representará a parte faltante! E geralmente falta no outro, justamente o defensor...

A voz robotizada anunciava a próxima estação...

A mulher de óculos escuros refletia e mesmo assim ainda de tempos em tempos freava uma lágrima que queria escorrer além dos limites lhe imposto...
Como é possível que se reflita sobre algo enquanto a memória fica a lhe mostrar quadros sombrios a ponto de expulsar lágrimas da alma como quem o faz com pés na bunda?

Talvez houvesse relação entre tais quadros e os espelhos que percebia... Talvez!

Quem sou? (Pergunta tão antiga quanto a própria 'humanidade'.)

E diante de cada outro, pode-se perceber uma pronta resposta...

- Quem sou? E como eco a pergunta vai sendo repetida a cada olhar encontrado... E pior, cada um tem a maldita resposta!

A questão levantada ali, naquela estação onde a mulher encontrava-se não confortavelmente sentada, fora a de que nunca dantes dera-se conta de que tal questão martelava-a tão insistentemente, e era sempre por todos respondidas tão prontamente.

Não houvesse os outros a responder a questão como provaria sua existência?

E que mulher não traz consigo o tempo todo um espelho?

E quem resiste ao espelho colocado diante de si? No elevador, num corredor, em uma loja qualquer, no reflexo de uma vitrine... Sem contar os espelhos espalhados e espelhados por toda a casa bem decorada..

E já disseram que gatos são como espelhos de nossa alma! Nos tratam como são tratados...

Mas os espelhos, sabemos, nos trazem imagens invertidas de nós... Mas imagens! Provas de que estamos ali diante dele! Mas, há mais...

Os espelhos nos oferece o campo em que estamos inseridos... Sim! Somos e estamos em algum lugar...

Precisamos, mesmo sem nos darmos contas, de espelhos!

Precisamos?!?

Buscamos? E se não quisermos? E se deles quisermos fugir?

Ahhhh, há ainda todos os olhares do mundo!

Este foi o choque refletido: olhares são também espelhos! E tais espelhos estão por toda a parte...

Mas e se partem?

Fragmentos de espelhos... Fragmentos do que por eles eram vistos também são espalhados...

Um caco de espelho em um olhar que o olhava interrompe a dialética do olhar e o faz como ele se quebrar...

Um caco de espelho pode ferir e até matar! E tudo isto com apenas um pedaço de olhar...

Como negar a própria identidade cravada em tantos olhares que se impõem todos os dias?

O próprio olhar como defesa e auto-afirmação já não basta se tantos e tantos espelhos e fragmentos e cacos já lhe rasgaram a alma e a obrigaram a cobrir suas vergonhas com o véu negro de um par de óculos escuros...

Levantou a cabeça, suspirou profundo, levantou-se e desceu na mais próxima estação...

E lá estava ela andando rodeada de elas... Todas inimigas dela; menos ela que sozinha refletia todas aquelas...

...

6 comentários:

  1. Aff Que sufoco, me coloquei a pensar nas vezes que já escondi lagrimas no metrô, ainda mais na Sé em horário de pico... ninguem merece tanto espelho né... Mas o caco mais mortal de todos é o caco do espelho da alma que nada nem ninguem pode consertar ou remendar, apenas um recomeço, frio, dificil e arduo recomeço....

    bj a vcs daqui...

    Catia

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  2. Não escondi minhas lágrimas no metrô, mas dentro de um ônibus semi vazio. Assim fica mas fácil deslizar as tristezas sem muito espectadores. Por sorte não havia tantos "espelhos" a refletir minha angústia atravessada, da alma para o olhar.
    O meu olhar opaco e, mesmo em lágrimas, seco.

    Bjusss devaneados
    Sil

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  3. Minha linda e querida Kel...

    Tarefa difícil esta de comentar os seus textos, hein? A cada vez, o sentir precisa ficar mais refinado ao lidar com suas palavras tão fortes!!

    Forte... esse é o significado de tudo que você nos passa... e muito verdadeiro também!

    Precisamos do outro, do espelho, para reafirmarmos nossa identidade, o tempo todo! E, quando esse outro é inimigo, tornam-se ainda mais evidentes nossas falhas e deslizes!

    Ah... e como é importante e doloroso percebê-los, né? Mas, aos poucos, vamos encontrando estratégias, mesmo que seja sair correndo do metrô olhando pra baixo, de vez em quando!

    Simplesmente PERFEITO!

    Você é DIVA!!

    Beijos com carinho e olhares sempre presentes!

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  4. Oii..
    tem selinho no meu blog pra vc!
    e não se esqueça das regrinhas, rs

    Beijoos
    http://pathyoliver.blogspot.com/2011/05/300-seguidores-o.html

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  5. Uau! Uau! U-A-U...

    Kel, a louca - tu deverias te chamar de Kel, a sã, pois li poucas coisas tão sábias neste mundo como este seu relato-conto-crônica-desabafo-devaneio!

    Tuas palavras me devoraram e percorreram cada curva de minhas entranhas...

    Estou tocada, extasiada... Lembrarei de ti a cada momento em que me olhar no espelho do outro novamente!

    Lindo!

    Por favor, não pares nunca...

    Bitocas... avassaladoras!

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  6. Uau, adorei isso e arrepiei.
    Beijosss

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